Estrevista curiosa
Luís Filipe Menezes: "Pacheco Pereira é a loira do regime"
Publicado em 20 de Junho de 2009
Voltou a Gaia, ao karting e às suas obras, que mostra com um orgulho desvanecido. Vai ser novamente candidato a presidente de câmara e acredita numa maioria absoluta com 65% dos votos. Luís Filipe Menezes, que se demitiu de líder do PSD por não resistir à pressão "das elites", diz que está feliz. Agora quer reconciliar-se com o partido. Para o futuro, aposta no seu munícipe, Paulo Rangel.
Tem pensado que se tivesse resistido um bocado mais à pressão agora poderia ser candidato a primeiro-ministro?
Quanto ao discurso e à qualidade do discurso não tenho dúvidas. Nunca tive...
A Dra. Manuela Ferreira Leite também tem levado muita pancada?
A Dr.a Manuela Ferreira Leite é uma mulher resistente...
E o senhor não é?
Eu sou um ser muito sensível (risos).
Mas afinal que se passou na última semana antes de decidir demitir-se?
Há muitas razões, é uma matéria complexa. Eu tinha o pleno convencimento de que, se fosse possível transmitir ao país o meu pensamento estratégico, teria tido muito sucesso como líder do PSD - e porventura para além de líder do PSD. Mas tomei consciência de que era impossível. É quase impossível alguém vindo de fora de uma determinada aristocracia político-cultural, social, da Grande Lisboa, ter oportunidade sequer de se dar a conhecer ao país. Os factores de desconfiança, de marginalização apriorística, de preconceito, quando não de perseguição, são de tal ordem que às tantas está-se a discutir pseudoquestões de personalidade, carácter, comportamento, na lógica de afastar uma pessoa que é perigosa por uma única razão, que é não pertencer ao grupo. Mais vale não arriscar e ter algum do grupo...
É o eixo elitista, sulista e liberal?
Estou a falar de uma lógica de centralização do poder, nomeadamente à volta dos dois maiores partidos, com troca de benesses, favores, de estima recíproca, que faz com que as pessoas, mesmo quando sabem que vai haver mudança de liderança, prefiram ter alguém que almoça ou janta com eles diariamente no Gambrinus ou no Ritz. É muito difícil que alguém que surja de fora deste círculo possa ter sucesso. Olhando para trás, eu podia ter tomado duas ou três medidas ab initio que poderiam... Não vou dizer que teriam resolvido o problema. Mas poderiam ter dado mais três ou quatro semanas para eu ter a oportunidade de montar uma estrutura que resistisse a tudo isso. Aí, eventualmente, falhei - ou não tive condições para o fazer...
Que medidas eram essas?
Independentemente de as pessoas me mereceram o máximo respeito e terem sido excelentes comigo, do ponto de vista dos sinais que essa aristocracia pedia, eu devia ter tido opções diferentes na secretaria-geral do partido e na direcção do grupo parlamentar...
Está arrependido, obviamente, de ter escolhido Santana Lopes?
Do ponto de vista dos sinais desse grupo estruturado à espera da primeira oportunidade para me atacar, foram opções que me fragilizaram. O Dr. Santana Lopes serviu para dizer "vem mais populismo", "o sinal da derrota anterior", "é populismo com populismo". No caso do meu companheiro Ribau Esteves, era "mais alguém da província"... Foram dois sinais que eu deveria ter dado de outra maneira... Teriam eventualmente prolongado o estado de graça por tempo suficiente para eu ter estruturado uma estratégia de combate político, interno e externo, que permitiriam que determinadas coisas não tivessem acontecido.
Está a falar do combate do Dr. Pacheco Pereira, que o acusa de aparelhismo?
Pacheco Pereira é a loira do regime.
O que é isso?
Não é nada de depreciativo. Quando nos lembramos do "La Dolce Vita", de Fellini, nenhum de nós se lembra do Marcello Mastroianni, mas lembramo-nos da bela sueca a tomar banho na Fontana di Trevi. Cada filme, cada país, cada circunstância, cada momento histórico, tem a sua loira do regime. No nosso momento histórico, o meu companheiro Pacheco Pereira é a loira do regime. Ele só quer centrar todas as atenções nele, independentemente daquilo que esteja em causa. É evidente que a loira do regime é sempre má actriz. Quando se lhe dá um papel importante dá sempre para o torto - mas esteticamente é fantástica.
Saiu da liderança com mau feitio?
Saí um bocadinho mal disposto, é verdade.
Que se passou nos últimos três dias antes da sua demissão? O Dr. Aguiar-Branco deu uma entrevista?
Foi uma mera coincidência, tomei a decisão de sair muito mais cedo. Foi uma decisão muito pensada, muito meditada. Foi um serviço que fiz ao PSD e a mim próprio, e de que maneira.
Houve quem pensasse que se demitia para se voltar a candidatar?
Nessa noite houve pessoas que disseram "isto é uma jogada, ele vai voltar e vai ganhar, tem o aparelho todo com ele". Não valia a pena, o filme era esse. Eu quando disse que não me recandidatava já pensava não me recandidatar. Era preciso deixar o partido respirar, fazer com que um conjunto de personalidades que aspiravam brutalmente à ascensão aos lugares não pudessem dizer que lhes era cerceada essa oportunidade de uma forma ínvia, viciada. Hoje as pessoas no partido já entendem que afinal as coisas são assim, não há uns mais inteligentes do que outros...
A própria Dr.a Manuela Ferreira Leite foi buscar Santana Lopes?
Claro! No dia em que a Dr.a Manuela Ferreira Leite apoiou a candidatura do Dr. Santana Lopes a Lisboa recebi várias mensagens. Uma delas, de um companheiro, dizia: "Se tu tivesses escolhido o Santana para a Câmara de Lisboa, hoje eras queimado como a Joana d'Arc no Rossio!" Não tenho qualquer dúvida de que o tinha sido.
Acredita mesmo que o PSD pode ganhar as eleições?
Acredito sinceramente. Há uns tempos tinha dúvidas sobre se o eleitorado ainda estava a dar o benefício da dúvida ao Eng.o Sócrates - que era dar-lhe 38% a 39% - ou se era "tirem-no da nossa frente". O que aconteceu foi o "tirem-no da nossa frente". E não estou a ver que haja uma grande mudança de opinião possível daqui por diante. Quando as pessoas chegam ao "tirem-no da nossa frente" é mesmo assim. Com um valor de 26% nas eleições europeias, se o PS subisse para os 35% ou 36% já seria uma perfeita loucura. É legítimo pensar que, com a dinâmica de vitória que o PSD claramente, neste momento, tem, possa passar de 31% para 37% ou 38%. Existe um perigo real, que é o da total ingovernabilidade, com os dois maiores partidos ali nos trinta e poucos por cento, sem conseguirem fazer maioria com nenhum dos pequenos partidos. Aí vamos ter instabilidade...
E o Bloco Central?
Não acredito que seja essa a fórmula. Teríamos de repensar a organização do sistema político. Seria inevitável abrir um debate na sociedade portuguesa sobre a evolução do semipresidencialismo.
É presidencialista?
Não no sentido de aspirar a um presidencialismo à americana ou sequer à francesa. Agora, acho que a experiência dos 35 anos do presidencialismo devia fazer com que não tivéssemos preconceitos de discutir a questão. O Presidente está limitado a uma situação muito difícil, que é ter a bomba atómica, o poder de dissolução, e no quotidiano ter poucos poderes. Contrario sensu, isto sim provoca instabilidade. Está sempre toda a gente à espera que o Presidente discurse, que seja mais duro, que o Presidente dissolva. Veria com bons olhos a evolução, o reforço dos poderes do Presidente em matérias de política externa, segurança, defesa, e de o presidente ter mais autonomia e poder decisório na escolha dos altos funcionários da regulação do funcionamento do Estado... Se estivermos numa situação de fragilidade de maioria parlamentar, esse vai ser o debate que será aberto na sociedade portuguesa, até porque o Presidente sai relativamente incólume desta crise política e económica em que o país está...
Se o PSD optasse por uma aliança pré-eleitoral com o CDS, isso seria mais favorável à obtenção de uma maioria?
Acho que talvez. Mas isso é um tabu tremendo, já fez cair muitos líderes! O único líder que teve força para assumir uma aposta desse género foi o Dr. Sá Carneiro. Vamos ser pragmáticos: nas actuais condições não existem possibilidades de desenvolver um processo desses.
Antes das europeias, disse que havia pessoas que estavam a rezar para que a Dr.a Ferreira Leite tivesse um mau resultado. Estava a falar de quem?
Eu estou claramente numa posição de ser um factor de coesão e unidade do meu partido - e não de desestabilização. Houve pessoas que deram sinais públicos de desejar que isso acontecesse...
Foi Pedro Passos Coelho, durante a campanha?
Acho que isso está ultrapassado. Agora vamos concentrar-nos em unir-nos. Acho que a Dr.a Ferreira Leite faria muito bem em dar alguns sinais de que sabe unir.
Chamar os seus antigos opositores?
Dar sinais de que é capaz de unir a família. O que é mais importante é um programa que una toda a gente, mas as famílias também jantam e almoçam juntas. É importante para ultrapassar querelas do passado. Era bom que ela fosse capaz de dar esses sinais.
Pacheco Pereira aconselhou-a a fazer uma limpeza nas listas?
O Dr. Pacheco Pereira, se o deixassem, fazia as listas sozinho na Marmeleira. E penso que só o Dr. Lobo Xavier, o António Costa, com uma cunha o José Magalhães e talvez o Carlos Andrade tivessem lugares nas listas. E depois, para não arriscar alargar muito o leque, era capaz de arranjar uns clones do Robocop para não haver infiltrações perigosas de populismo (risos). Deve abrir as listas à sociedade, ir buscar gente que não é do PSD, mas é da nossa área, às universidades, às empresas. Não se deixar ficar amarrado ao peso do aparelho. Ir buscar gente às associações empresariais, aos jovens agricultores. Os agricultores estão muito do nosso lado. Apostar em novas gerações. O Dr. Paulo Rangel é uma nova geração...
Portanto, multiplicação de "paulos rangéis"?
Quando há pouco me disseram que Paulo Rangel é uma possibilidade para a futura liderança do PSD, eu pergunto: porque não?
Já o vê como futuro líder?
É preciso dar uma oportunidade à geração dos 40 e deixá-los mostrar o que valem. Eu até tinha opções diferentes para a liderança da lista europeia. Mas o Dr. Rangel mostrou qualidades que eram desconhecidas. É preciso correr o risco de deixar que outras pessoas vão para a primeira linha. Se a Dr.a Manuela Ferreira Leite usar o poder para isso, é positivo. Mas isso não significa pôr meia dúzia de amigos da comissão política nacional. Isso seria corresponder às piores suspeitas que levaram à minha substituição na liderança. Pessoas como o Dr. Paulo Rangel é que devem ser chamadas, e isso não significa que os mais velhos devam ser afastados ou marginalizados. Eu defendo uma grande reforma da administração pública, temos de reformar o sistema político. Por exemplo, a redução do número de deputados. Portugal funcionava com um Parlamento com 120, 125...
Isso dava cabo dos pequenos?
Não dava cabo dos pequenos partidos! Dependeria do sistema eleitoral. Quer um exemplo de um parlamento pequeno em que os pequenos partidos mais radicais nunca foram expurgados? Israel. Existem soluções para compaginar um parlamento pequeno e os pequenos partidos. Aliás, havia a possibilidade de, para quem temesse a regionalização, pôr outro cenário em cima da mesa. Em vez da regionalização, ter um pequeno parlamento e um pequeno senado. E o senado ser o factor de equilíbrio dos poderes regionais em Portugal... E também era a possibilidade de os mais velhotes, como eu, terem um lugar minimamente prestigiado (risos). Falo de um senado com 20 ou 30 pessoas. Com um parlamento de 120 deputados, ainda eram menos 80 pessoas do que estão actualmente no Parlamento.
E do Presidente da República, que balanço faz?
Penso que o Presidente da República tem estado bem. Tem tido a contenção de nunca pegar no botão da bomba atómica - tentação a que não resistiram o Dr. Sampaio e o Dr. Soares. Os motivos criam-se. Eu pergunto o que o Dr. Jorge Sampaio teria feito sobre o caso Freeport se fosse com o Dr. Santana Lopes. Atenção, que a minha posição relativamente ao primeiro-ministro, em defesa da sua seriedade, tem sido pública e notória. Mas não sei o que o Dr. Sampaio faria com o Dr. Santana Lopes se tivesse o caso Freeport entre mãos. Portanto, este Presidente tem sabido apoiar o que é de apoiar. E, quando entrou na fase de criticar, tem-no feito de forma moderada e inteligente.
O senhor está aqui em Gaia, do outro lado do Douro está o Dr. Rui Rio. Há mais de 20 anos que têm um diferendo que já ninguém sabe como começou. Andavam os dois na JSD?
Isso é uma lenda. Nunca conheci o Dr. Rui Rio na JSD.
Quando é que o conheceu?
Só conheci o Dr. Rui Rio em 1990, quando me candidatei pela primeira vez a presidente da distrital do Porto e o Dr. Rui Rio candidatou-se a vice-presidente contra mim, na lista liderada pelo Dr. Aguiar-Branco.
E é daí que vêm as divergências?
Penso que não é daí. Há pessoas que estavam nessa lista que têm relações pessoais comigo. (risos) A coluna social política não vive sem estas histórias...
Nunca os vi do mesmo lado!
É verdade. E não é fácil estarmos. Não tem a ver com divergências políticas, ideológicas...
São questões pessoais?
Idiossincráticas. Somos pessoas que têm filosofias de vida completamente diferentes - ambas respeitáveis. Não se deve misturar água com vinho tinto. É estragar a água e estragar o vinho tinto! Eu gosto muito de ler livros, adoro Graham Greene, Hemingway, Saul Below. Adoro cinema. Tenho milhões de filmes. Perco muito tempo sem trabalhar para ir ao cinema. Adoro guiar carros (karts), subir montanhas. É a minha maneira de ser, admito que outros possam gostar de outras coisas, ser mais contemplativos. Às vezes, as diferenças de idiossincrasia são tão profundas que não permitem que duas pessoas sejam amigas. É normal.
Mas sendo presidentes de dois municípios vizinhos têm de trabalhar juntos, têm de se encontrar?
Por acaso nunca nos encontramos...
E que acha da obra de Rio no Porto?
Prefiro sublinhar o que é positivo. A aposta na reabilitação da Baixa do Porto foi positiva. E, sem entrar na lógica de ritmos, métodos e quantidades, acho que está a dar os seus sinais e vai dar sinais muito mais exuberantes nos próximos tempos. Acho também que a política de enquadramento social e reabilitação urbana dos bairros sociais é indiscutivelmente muito positiva, fazendo um grande contraste com o passado.
Avançaria com a regionalização?
Arriscava avançar a curto prazo, sem tabus. Por exemplo, eleger o presidente da comissão de coordenação regional. E depois transferir alguns poderes que estão nas ARS, nas DREN, nos portos, para essa entidade regional democraticamente eleita. Não vejo que viesse mal ao mundo. Já experimentámos o centralismo absoluto...
Concorda com autárquicas e legislativas no mesmo dia?
É uma matéria em que mudei de opinião. Neste momento, acho completamente desaconselhável. Seria baralhar as coisas. Se eu vou para a rua fazer campanha, com eleições no mesmo dia, as pessoas não sabem se estou a promover o meu programa autárquico ou o meu partido em termos nacionais. Devo fazer as duas coisas em momentos diferentes. Não devo parasitar as minhas mensagens nacionais com mensagens locais nem as mensagens locais com mensagens nacionais. E depois não vamos ser ingénuos - detesto ser hipócrita: aqui o meu partido vale 30%, mas a minha câmara vale 65%. Em eleições no mesmo dia, isto vai criar grande perturbação no cidadão eleitor, com prejuízo da minha candidatura. Não sou masoquista!
Há outros autarcas do PSD a defender o mesmo?
Defendem, mas não têm a coragem de dizê-lo em voz alta. Normalmente dizem-me ao telefone.
O senhor defende o TGV, mas o primeiro-ministro parou-o por pressão do PSD e do Presidente da República?
Penso que o primeiro-ministro pára porque já não tem - se é que alguma vez teve - desígnio estratégico. Quando se tem desígnio estratégico não se pára. O problema do Eng.o Sócrates, e tem sido o dos governos sucessivos de há uma quinzena de anos para cá, é que governam sem desígnio estratégico. Governam por pulsões, por ímpetos de circunstância, decorrendo do voluntarismo deste ou daquele ministro. Neste momento, parece perigoso afrontar o Presidente da República e uma opinião pública hesitante quanto à questão da importância a dar aos investimentos - mais vale parar para depois decidir o que se faz.
Mas acha que o governo tinha total legitimidade para avançar com o projecto, ao contrário do que diz o PSD?...
Eu não estou a dizer que há uma divergência entre mim e o meu partido, em relação aos investimentos públicos. Posso ter uma visão diferente no que diz respeito ao TGV, porque considero que devemos pensar muito a sério na competitividade do país no contexto da Península Ibérica. Essa competitividade dificilmente se consegue sem um conjunto de mais-valias e isso pressupõe portos, aeroportos, transporte ferroviário. Mas na questão de fundo não estou em divergência com o meu partido. O governo não explicou aos portugueses porquê e para quê o investimento público, nem porque se atrasou quatro anos. E agora deixou de ser importante porque afinal recua.

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